quarta-feira, maio 17, 2006

Memórias

Lembro-me ser pequenina (não mais de quatro anos) e comer um grande prato de nestum à janela. Era a minha avó que mo dava, e para me distrair ía-me ensinando a "ler" o semafro dos peões: "só se atravessa quando está verde, está bem filhoquinha? Vês, agora o boneco está encarnado, é proibido passar..."
Mas eu estava mais concentrada em ver o fundo ao prato (era cavalinho, da Fábrica de Sacavém, ainda o tenho) porque quando via o bendito cavaleiro, era sinal que estava quase tudo comido e podia ir brincar...
Também me lembro do meu avô meter as chaves à porta todos os dias às 20h em ponto. O jantar já estava na mesa, era só lavar as mãos.
Mas primeiro, eu ía-lhe aos bolsos do casaco para ver se lá haviam moeadas. Se houvessem, eu tinha autorização para as por no meu mealheiro do Montepio.
Eu e os meus avós jantávamos na sala de jantar, a ver o telejornal. O meu avô não passava sem "o noticiário" e quando havia uma notícia mais importante, tinhamos mesmo que estar em silêncio.
Naquela altura, a minha mãe trabalhava na Cruz Vermelha e só chegava a casa às 21h e 30.
O jantar dela ficava num prato dentro do forno (que a minha avó aquecia para a comida não arrefecer) e ela jantava na mesa da cozinha, porque a sala de jantar já estava toda arrumadinha. Eu sentava-me à mesa com ela e pedia para jantar outra vez. Não tinha fome, era só para lhe fazer companhia...
Claro que a minha avó não me deixava, mas dava-se uma caneca de leite Nido com mel, e depois mandava-me para a cama, porque era muito tarde para mim.
E era a minha avó que lhe ficava sempre a fazer companhia, porque o meu avô adormecia a ler no sofá...

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